Como aprender línguas mudou a minha vida

Se eu pudesse te dizer apenas uma coisa durante um breve encontro, eu diria: aprenda uma nova língua.

O aprendizado de uma nova língua tem um valor inerente extraordinário.

Você lembra da última vez que entendeu uma fala inteira assistindo um filme estrangeiro?

Ou quando conseguiu entrar e sair de um estabelecimento fora do país sem gaguejar?

É uma sensação única e eu gosto de encará-la como um super poder.

Se conectar com pessoas que nasceram e cresceram sob circunstâncias totalmente diferentes da sua é como explorar um jogo de RPG, há diversas descobertas e, com um pouco de flexibilidade e fascínio, você acaba se tornando uma versão melhor de si mesmo (ou várias versões).

Trago alguns números, caso vocês ainda não se convençam com as palavras que vos escrevo.

Hoje, 260 milhões de pessoas no mundo falam português, 400 milhões de pessoas falam espanhol e 1.5 bilhões de pessoas falam inglês.

Digamos, hipoteticamente, que você fale português nativamente, se vire bem no espanhol, e que todos os falantes de português e espanhol também falem inglês. Nessas circunstâncias, se você ainda não fala inglês, você está deixando de lado a oportunidade de se conectar com ˜840 milhões de pessoas, das quais 8 milhões tem uma forte chance de serem gênios. Não sou só eu quem estou dizendo.

Se você ainda não fala inglês em 2019, aí está uma ótima meta para 2020. E se a sua desculpa no passado era que você já tentou diversas vezes e nunca deu certo, talvez uma escola de inglês completamente diferente das escolas tradicionais é a única coisa que te separa de se conectar com potenciais parceiros de negócio ou amigos pra toda a vida.
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Convenhamos que o método tradicional de ensino de inglês no Brasil é velho e sem eficiência. Aqueles livros de gramática imensos e salas de aulas enormes? Nem pensar. Aprender inglês deve ser feita de uma forma natural.
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Eu notei um padrão interessante na minha vida quando o assunto é aprendizado de línguas.

Algum gatilho torna a língua interessante, eu começo a procurar mais sobre o país de origem, isso me leva a comprar um livro de gramática e a estudar sintaxe e estrutura linguística, que por sua vez me fazem entender um pouco mais sobre o modo de pensar das pessoas que vivem por lá.

O desejo de visitar esse país só aumenta no plano de fundo e normalmente depois de um tempo, com pouco planejamento e muito impulso, eu me vejo perdido pelas ruas de lá, repetindo frases feitas na cabeça na esperança de usá-las com o primeiro nativo que der abertura.

Depois de um mês e pouco vivendo na terra da pizza e do carbonara, eu finalmente consegui manter algumas conversações em italiano.

Não se engane, estava mais pra um monólogo do que pra um podcast.

Talvez o monólogo seja um pouco de exagero, mas perguntas simples como "come andiamo?" ou "che cucinerà stasera?" te levam à respostas inimagináveis.
Matera, Basilicata, Itália
Eu descobri que uma das senhorinhas que conversei estudou francês no colégio, foi professora de italiano por muito tempo e até arrisca no espanhol. Ela se amarra em línguas.

A outra me disse que tinha operado o ginocchio e tinha um pouco de dificuldade pra andar, enquanto apontava para o joelho. A mistura de italiano com o dialeto Calabrese (ou Cosentino) tornou tudo um pouco mais desafiador e interessante.

Um pouco depois, um garçom me disse algo parecido com "porco" e me mostrou um pano. Houve um momento de constrangimento, mas depois de alguns minutos, muitos gestos e tentativas fracassadas de falar uma mistura de português, espanhol e italiano, eu entendi que a mesa estava sporco (suja) e ele queria limpá-la antes de eu me sentar.

Rimos, eu aprendi uma nova palavra, que também difere em gênero do português, e creio que agora sou mais bem vindo do que a primeira vez que cruzei aquela porta.
Pizza em Roma
Aprender uma nova língua não é uma tarefa fácil e muito menos tem um fim determinado, e eu acho que essa é a beleza do processo.

Enquanto se mudar pra um país antes de aprender o básico da estrutura da língua falada por lá pode ser uma ponte pra frustrações, começar por países com uma língua de origem similar à sua pode ser o que falta para tirar as amarras.

Eu já estou estudando alemão há um tempo porque quero me aventurar pelos ares lá, e também tive sorte de vir parar em um país, sem nenhum preparo prévio, que fala uma língua originada do Latim.

Nós, falantes nativos de português, conseguimos aprender italiano, espanhol e francês com muito mais facilidade do que falantes nativos de uma língua germânica, por exemplo. Você já tentou explicar porquê "mesa" é um substantivo feminino enquanto "relógio" é masculino pra um falante nativo de inglês?

Sem fazer o internacionalzão, mas aquele papo todo de que aprender uma nova língua te muda é real oficial, há expressões em outras línguas que só funcionam nessa língua.

Talvez a parte mais interessante seja aprender expressões incomuns, sem traduções, e se pegar as usando no dia a dia sem realmente parar pra pensar no sentido literal. As minhas preferidas são:

I'm down: pode significar tanto "estou pra baixo" como "tô dentro," quando alguém te faz algum convite.

Break a leg: significa "boa sorte."

Ich drücke dir die Daumen: enquanto nós falamos "cruzo os dedos," alemães dizem "pressiono/aperto o dedão."

Che pizza!: significa "que chato."

Buena onda: algo bom, ou uma pessoa bacana.

Se eu, com 20 anos, achava esnobe e prepotente pensar em uma expressão em inglês enquanto falava português, hoje rio de mim mesmo quando algo parecido acontece.

Esses dias me peguei falando "lentejas" ao invés de "lentilhas" enquanto falava sobre o jantar com amigos, e acredito que isso se deve ao fato de eu só ter incluído lentilhas na minha vida enquanto viajava pelo Chile e Argentina. Logo, esse é o primeiro som que me vem à cabeça e que parece mais natural.
Lambretta super tradicional em Roma
Na minha humilde opinião, o grande segredo de aprender uma nova língua é estar disposto a passar vergonha e, mais do que isso, estar aberto ao mundo.

Já passei por inúmeras situações, principalmente na França e na Itália, nas quais eu tentava falar inglês e recebia uma resposta não muito amigável.

Por outro lado, diferente do que eu esperava, quando eu arrisca um francês ou italiano básico e horrível, o sorriso na cara das pessoas tornava a situação completamente diferente. Muitas vezes eu ainda pego o celular, peço um momento, e procuro junto com essas pessoas a tradução para o que eu to tentando dizer.

Isso combinado com frases como "come posso dire?" tornam o mundo em uma sala de aulas, e até hoje eu não conheci alguém que não estava disposto a me ajudar a terminar uma frase.

Alguns dizem que ao aprender uma nova língua você adquire uma nova alma, ou até mesmo uma nova identidade. To pensando até em pegar um cartão fidelidade do Poupatempo, porque não pretendo parar tão cedo.

Arrivederci, per ora
"One sentence a day keeps the monsters away."
Felipe likes to write about stuff. See more of that here.
Felipe Arcaro
Apprentice
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